Artigos e Cronicas

May 25, 2010

O tesouro e os dois punhais

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(Jackson Fernandes Filgueiras)

Lembrando da lenda da botija (tesouro encantado) dos dois punhais, passei a fantasiar sobre uma hipotética revelação.

Aliás, fantasiei sobre mais de uma possibilidade.

Aí vai - ou vão:

José e Joaquim

José morava no lugar Ipueiras. Desde muito novo, manifestava com bastante energia o seu desagrado em ter que trabalhar na roça.

Achava desumano acordar antes do nascer do sol, mal tomar café e já ir para o campo, pagar no cabo da enxada.

Não conseguia concordar com os argumentos da mãe, de que era destino de todos daquela comunidade. Rebatia dizendo que os filhos de seu Luizinho não tinham que usar a canga como ele e os seus irmãos. Isso provocava uma reação quase enérgica de sua mãe - seu Luizinho era um frouxo, não sabia educar os seus filhos, e ia chorar depois que seus filhos estivessem grandes.

A mente de José não descansava, esquematizando planos para ganhar dinheiro e não ter que trabalhar tanto.

E se virasse um trocador? Podia trocar a bicicleta do irmão em uma bicicleta mais velha, e com o dinheiro da volta comprava um relógio, dos vagabundos mesmo. Aí era só limpar o vidro, dar um jeito na pulseira, polir bem, e ele ia parecer novo. Com o lucro da venda, podia comprar outro relógio. E começar tudo de novo.

Tudo muito bem elaborado. Só faltava o principal - a bicicleta era do irmão. E ele não tinha dinheiro para comprá-la. E nem sabia se seu irmão queria vendê-la.

Mas ele não desistia de planejar. Para não ter de trabalhar tanto para o pai. Mas depois, para se parecer mais importante aos olhos das meninas da Ipueiras - agora um adolescente.

Começou a trabalhar alugado, aos sábados. Era uma contradição, trabalhar para poder parar de trabalhar. Mas José não entendia nada de filosofia. Nem de política.

Só sabia que para começar com as suas trocas, tinha que ter algum dinheiro. E esse dinheiro ele tinha que ganhar. E não adiantava pedir ao pai, que ele ia dizer que não tinha condições, que as despesas eram muito grandes, criar filhos era um castigo, e tudo que eles precisavam ele dava um jeito de conseguir.

Então, era melhor adotar outra estratégia. Ia trabalhar de aluguel. Mas o pai protestou, aquilo não estava certo, onde já se viu, trabalhar pra os outros quando o pai precisava tanto de ajuda?

Pensou em trabalhar nos domingos, quando o pai ia pra feira, na cidade. Mas não tinha quem aceitasse trabalho no domingo. Tinham uma história que era pecado, mas ele achava que era ruindade mesmo. Os donos do serviço (qualquer serviço) queriam olhar de perto o que os trabalhadores faziam. Porque se trabalhar domingo era pecado, por que não era pecado dar ração pra o gado, campear gado nas mangas, tirar leite?

Aí começou a pensar num jeito de convencer o pai a deixá-lo trabalhar. Mas teve muito cuidado, pois também não queria apanhar de cinto.

Até que um dia, parece que encontrou a coisa certa a fazer. Chegou perto de seu pai, e disse:

"Seu Ambrósio tá aperriado com a capoeira de seu Onézimo."

"Aperriado por que?"

"Porque o mato tá tomando conta da lavoura"

"E por que ele não derruba o mato?"

"Porque a capoeira é muito grande. Mais de duas cinquenta de terra."

"Ora, é só contratar trabalhadores".

"Ele tentou. Mas não tem ninguém pra trabalhar pra ele."

"Como não tem?"

"Não tem. Todo mundo foi trabalhar na Maísa."

"É. Compadre Ambrósio foi muito afoito. Agora seu Onézimo vai mandar ele embora."

"É. Eu vou sentir falta deles. E onde será que eles vão se arranjar?"

"Sei lá."

"E os meninos, como vão ficar?"

"Não sei."

"É."

"Mas você pode ajudar ele."

"E o senhor?"

"É. Você vai fazer falta aqui. Mas não tem jeito. Não é garantido que vai resolver o dilema de compader Ambrósio, mas vai aliviar as coisas. Você vai lá trabalhar nos sábados."

"Sim, senhor."

(Continua…)

May 23, 2010

Lendas da minha cidade

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Jackson Fernandes Filgueiras

Depois das anedotas contadas pelo meu pai, lembrei-me, também, de umas lendas que se forjaram sobre a história da minha terra.

Uma delas, a de um anjinho, morto na fonte que, muitos anos atrás, abastecia a "cidade".

Dizem que esse anjinho passou a fazer milagres, e quando eu ainda morava lá, construíram uma capela (ou pode ser um oratório; uma gruta). Já aviso que o tempo, o descaso e as frustrações me afastaram das religiões, então não sei a diferença dessas homenagens arquitetônicas.

Dizem, também, que a sua morte se relacionava, de alguma forma, com seus olhos incrivelmente azuis.

Um primo que nos visitou aqui no Tocantins falou de um acontecimento de mais de um século. Aí eu contestei, pois eu fiu colega de um de seus irmãos. Mas a minha mãe disse que era possível, pois se lembrava de ser bem mais jovem que a sua mãe (do anjinho).

Aí eu fiu fazer as contas: eu tenho 47 anos, e o meu colega era dos filhos mais jovens do casal.

Na prole de meus pais, a diferença de idades chega a dezoito anos. E sabemos que, mesmo sendo raro, pode haver diferença de idade entre irmão de até trinta anos.

Bem, seriam uns 50 anos (pois o meu colega era ligeiramente mais velho do que eu) mais outros 30 (forçando um pouco a barra).

Ainda acho que não se trata de um caso de um século, embora chegue bem perto.

Aí, indisciplinado, eu não me concentro na contemplação e reverência - embora talvez devesse.

Me questiono por que alguém mataria um bebê (sim, porque a lenda especula sobre um [quase] certo homicídio - ou infanticídio).

Ora, eu sei que, ao contrario de uma ideia romantizada que se popularizou pelo mundo ocidental/ocidentalizado, vida de criança é fogo. Fico surpreso, até, em que tantas crianças conseguem se tornar adultos. E sei que, malgrado a banalização da violência nesses tempos, nossos ancestrais não eram santos.

Mas por que sacrificar uma criança?

Fazê-lo no contexto de uma religião já seria grotesco, que se dirá de um extermínio sem causa (por motivo fútil, diriam hoje, embora, no caso em questão, a lenda aponte para um motivo relevante, embora não aceitável).

E mais: por que matar um bebê tão bonito (era o que dizia a lenda)?

Fala(va)-se em consciência pesada. Mas também fala(va)-se em ausência de remorsos.

Puxa vida! Não sou cristão, mas os pecados me incomodam.

 Uma outra lenda diz respeito ao sítio da Igeja Matriz: esse templo teria sido construído sobre a cama de uma baleia, que, até aquele momento, dormia tranquila.

No entanto, os pecados e desmandos do povo do lugar acabaria por despertar o gigante de seus sono, e a catástrofe seria certa.

Há, também, a história de um tesouro escondido em cima da serra (uma botija, tão comum na região): O segredo seria revelado a dois grandes amigos, ou dois irmãos, e o tesouro somente seria encontrado se os dois fossem procurá-los juntos.

O fundo moral (cristão): o tesouro seria dividido corretamente pelos escolhidos, mas no final sobrariam dois punhais, um feito em ouro, e o outro em prata - ou em qualquer outro metal. Aqui se daria a discórdia, pois apesar de o tesouro ser muito valioso, o punhal de ouro seria disputado, e ambos os felizardos morreriam no duelo que se seguiria.

Há, também a história da moça que ridiculizou um bebê deformado.

Seu primeiro filho nasceu com a mesma deformação: castigoo de Deus.

Havia, também, o caso dos varões de uma família que tiveram muitas amantes e muitos filhos, provavelmente todas as amantes com quem sonharam.

Dois deles não se casaram, ou o fizeram já na velhice.

Conta-se que um deles morreu tísico (era o que se dizia), mas sofreu muito tempo antes de a morte vir aliviá-lo: também teria sido castigo pelos seus desmandos.

Mas aí, a morte do anjinho milagreiro, terá sido castigada?

Desconheço.

Eu mesmo acho que o maior castigo que pode haver a alguém que destoa do comportamento de sua comunidade (estou falando de crueldade) são as crises de consciência.

Será a percepção do desconhecido que se aproxima? Talvez, mas eu não raciocino até aí

May 19, 2010

Conflitos em família

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(Jackson Fernandes Filgueiras)

O meu pai contou, algum tempo atrás, uma anedota (que era para ser engraçada):

Houve, em certo lugar identificado, em certa época identificada, uma discussão entre pai e filho - pai já idoso e filho maduro.

De repente, o clímax: o filho se exalta, agride o pai, lança-o ao chão e começa a arrastá-lo por uma das pernas.

Chega a um ponto, porém, em que a cabeça do ancião fica presa em um obstáculo, na soleira de uma porta (?).

Nesse ponto, o pai usa da palavra, e diz:

- Já chega!

Ao que o filho retorquiu:

- Então já chega? O senhor concorda comigo?

E o pai devolve:

- Não é nada disso. É que aí nessa soleira foi onde a cabeça do seu avô enganchou, e eu não consegiu arrastá-lo mais. Então eu já lhe aviso que você não vai consegiur me arrastar mais também.

É, o meu pai é um homem simples. Estudou apenas até a quarta série, em uma escola rural, sessenta e tantos anos atrás.

A sua sabedoria (que eu invejo) é a sabedoria das pessoas simples, do campo.

No entanto, esta sabedoria popular, que levou todo o tempo do mundo para ser construída, tem no seu âmago todo o conhecimento que é tão caro à ciência e à filosofia.

Nessa pequena anedota - que me assustou, e ainda hoje me assusta - percebe-se nitidamente o complexo de Édipo, os conflitos de gerações, o velho embate entre o velho e o novo.

Também está evidente a força criadora da natureza: o que ontem era novo, é o velho de hoje.

No contexto, a insinuação da inexorabilidade dos valores humanos.

Muitas vezes, eu me flagro observando o quanto meus pais ficaram frágeis ao envelhecerem. O quanto se tornaram inseguros e ansiosos pela aprovação de seus filhos.

Decididamente, os papéis se inverteram.

Mas e aí? Foram somente eles que se transformaram? Eu permaneci imune - e impune?

É claro que não!

Ninguém passa impune pela vida.

Não se chega aos cinquenta anos (quase) com o mesmo entusiasmo e inocência dos dezesseis.

Uma das minhas amarguras é que eu não consegui realizar os sonhos dos dezesseis, dos dezessete, dos dezoito … dos trinta … dos quarenta.

E, pode apontar-me o dedo, eu sou paranoico: eu tenho medo de um dia descontar minhas frustrações nos meus pais.

May 18, 2010

O Barão

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(Jackson Fernandes Filgueiras)

Li, desde o fim de semana passado, que o Barão de Itararé foi homenageado pelos ativistas da mídia alternativa. Denominaram Centro de Estudos da Mídia Alternativa "Barão de Itararé" à mais nova fonte de disseminação de estratégias para o setor.

A meu ver, se trata de uma homenagem mais que justa. Mas isso me lembra uma outra coisa: como qualquer humorista, o Barão atacava as hipocrisias de forma mais surpreendente, e quase sempre mirava o alvo bem no inconsciente, como um psicólogo junguiano.

Dentre as suas máximas, as com que mais me identifiquei foram:

"Senso de humor é tudo aquilo que me faz morrer de rir, mas se acontecer comigo me deixa fulo da vida";

"Negociata é todo aquele bom negócio para o qual não fomos convidados".

Claro que a redação original provavelmente é bem outra - eu não tenho memória fotográfica. Mas ficou a informação.

A ação reflexa percebida nas máximas leva-me a um dito popular, que conheci já na adolescência: "quem disso cuida, disso usa!"

Sobre isso, é bem interessante um fato de que fui protagonista:

Eu tinha que prestar esclarecimentos sobre ações relativas ao meu trabalho, e esses esclarecimentos perpassavam por ações de outras personalidades, mais importantes que eu (ora, eu sou um joão-ninguém).

Ao encaminhar o texto com os esclarecimentos, para essas personalidades, por um intermediário (eu não tive acesso a esses portentados), ouvi que lhe fora recomendado ler tudo com bastante atenção, não perder nem uma vírgula.

Muito curioso isso: uma dessas personalidades me passava atribuições, para eu desempenhar sem emitir nenhum senso crítico.

Como mudam as perspectivas, a depender da posição do vento, não é mesmo?

March 1, 2010

Apelar é preciso!

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(criado por Jackson Fernandes Filgueiras)

Havia um cidadão aqui na cidade, que se candidatou a vereador umas duas vezes (não lembro com certeza).

Suas principais bandeiras foram: a origem nordestina e seu animal de estimação — um jumento.

Sim, sua mascote era um jumento. Pé-duro (sem raça definida), magro (como são os herbívoros criados na cidade), sem maiores atrativos.

Seguia com o candidato por onde ele fazia campanha (aliás, era levado pelo candidato). E sua campanha era se apresentar ao lado do jumento.

Não se elegeu, mas se tornou muito popular, na época.

Havia também um cidadão no interior do Rio Grande do Norte, que de tão apaixonado pelo político populista que adotara o verde como sua bandeira, decidiu que em sua casa tudo seria verde, até seu animal de estimação – do que deriva sua alcunha, Pedro do Carneiro Verde.

Conseguiu se aposentar como professor, apesar de afirmarem (as más línguas, ora pois) que era analfabeto. Ora, o que é que tem?

Houve um policial militar em outro Estado que conseguiu entrar para a política defendendo o endurecimento das regras para com os transgressores, fazendo apologia explícita à tortura (só apologia?). O povo acha que “autoridade” é o que resolve o problema da insegurança pública, e esse policial militar fez carreira política – até seu falecimento (não, não sei se foi assassinado) defendendo o “endurecimento” com o crime – parece que não adiantou muito, pois a região metropolitana da capital desse Estado é uma das áreas mais inseguras do nosso país.

Ah, claro! Tivemos o nosso Caçador de Marajás!

Este, entre outras façanhas, inaugurou o expediente do impeachment.

Dispensa maiores comentários, não é mesmo?

Houve um que, entre outras, adotou como marca a cor de sua(s) camisa(s) – e deu-se muito bem, obrigado.

Há também os indignados – cidadãos que em razão do ofício tomam conhecimento de fatos pouco ortodoxos, e denunciam ao público, por não concordarem com as ideias e interesses em jogo. Depois, capitalizam a indignação candidatando-se a um cargo eletivo.

Alguns se elegem.

Serão representantes íntegros? Há que investigar, não dá para concluir assim, de chofre.

Lembro de um conto bizarro que li quando estudava o Primeiro Grau (ensino fundamental, no século passado):

Um político, no início de uma de suas campanhas (mais uma), foi vítima de um acidente, onde teve fraturados os dois braços, que foram imobilizados.

Isso inviabilizaria sua campanha, pois a gestualística é indispensável à comunicação expressiva e explosiva de um político.

A solução encontrada foi contratar um mímico para “emprestar-lhe” os braços.

Os contratempos foram muitos, pois os braços não eram comandados pelo mesmo cérebro.

Daí que o candidato, fumante inveterado, ao acender um cigarro queimava o bigode; ao falar em dignidade as mãos batiam nos bolsos; ao falar do povo humilde os punhos se fechavam, ameaçadores.

São os riscos do negócio.

Dizem que um político muito famoso do século passado – o da vassoura, e das forças ocultas – jogava farina no cabelo, para simular caspa, e os eleitores se condoerem de seu estado.

Dizem que um político do Rio Grande do Norte – chamado “a raposa” – bebia água quente, para ficar (mais) rouco.

Ah! Também tivemos o “rouba mas faz” – ontem mesmo, eu fui apresentado a uma nova versão desse bordão: há o que rouba mas faz; o que rouba e não faz; e houve o que roubou e desfez.

Aqui, um problema: é certo que a criatividade é (quase) ilimitada, mas até que ponto há espaço para originalidade na “apelação”? Será que a “melancia no pescoço” pode se reinventar, ou será o eterno castigo para o “aparecido” – como aparecer acima do ombro da autoridade entrevistada.

O que resta?

Defender a adoção da pena de morte? Já houve quem o fizesse, não é mais original. Além do mais, a pena de morte é um fato consumado, infelizmente – no mundo paralelo das milícias, do crime organizado, dos potentados.

Endurecer na punição aos criminosos? Também não é mais original. Essa posição pode ser traduzida pelos seguintes bordões: bandido bom é bandido preso (ou morto); “cadeia (surra) não é santa, mas opera milagres”; “tolerância zero” (pros ladrões de galinha). Depois, em vinte anos nossos representantes já sancionaram mais de dez mil leis – são necessárias mais quantas?

Exigir que os filhos dos políticos estudem em escolas públicas? Essa é original, e de um cidadão aparentemente sério. Mas e se sacramentarmos a existência de duas (só duas?) categorias de escolas públicas?

A esterilização de mulheres e homens de baixa renda? Isso já foi defendido (e realizado) no Brasil. No entanto, eu duvido que algum político populista enfune esta bandeira publicamente.

Castração de maníacos sexuais? Sim, há quem defenda isso. Em alguns países se pratica a castração química (não é castração estritamente falando, é mais a aplicação de inibidores químicos).

Em alguns momentos, há os exaltados que defendem a castração strictu senso, com aquelas maquininhas ou com facas afiadas. Há também os que defendem o “olho por olho, dente por dente”.

Sim, é uma tese original, mas eu opino que alguns políticos devem se resguardar de defenderem-na, pois a posição de vidraça é meio desconfortável – para quem vive no limite.

Redução da maioridade penal? Essa já está muito batida embora ainda funcione. Quer dizer, o povo defende essa teoria. Mas por que não responsabilizar o Estado pela situação de abandono dos delinquentes infanto-juvenis e de suas famílias (para os que a tem)?

Sei lá, acho que apelação original mesmo foi o projeto da Ilona Staller, a Cicciolina – fez uma campanha com base no strip-tease. Quem se habilita?

Essa do strip-tease tem suas variáveis. Por exemplo, o senador Heráclito Fortes, apresentando toda aquela protuberância, seria demais. E o Efraim Moraes, com aquela cabeleira loira (pintada, com certeza)?

Corajoso mesmo seria alguém que assumisse as pelancas íntimas. Sim, por que não?

Mas e se aparecesse alguém que se apresentasse como a ovelha negra? O pústula que só explora o povo, que tem ojeriza ao populacho, que quer mais é se dar bem?

Será que só mesmo na ficção? Ou nas indiscrições das gravações clandestinas?

Sim, pois o penitente nós conhecemos.

Aquele que se arrependeu de seus desvios; aquele outro que Deus abençoou, apesar das suas maldades; o instrumento do Senhor; o filho pródigo; o renascido no fogo do espírito santo.

Ah, tem o viril. O superomem. Arrebata o coração das mulheres. E de muitos homens… mas isso é outra história.

Tem o inquisidor, que manda investigar tudo o que a mídia repercute (mas se declara perseguido se é com ele).

Tem o santo, que nunca levanta a voz. Parece que não faz muito sucesso. Mas poderia desafiar seus desafetos a provocá-lo. Isso renderia algum prestígio. Afinal de contas, resistir indiferente à revelação dos predicativos da mãe é uma qualidade fenomenal.

Acho que o intelectual é que não aparece muito. Sim, pois papo cabeça cansa muito, e demora pouco pra esse tipo se transformar num boçal, pedante, e menosprezar a assistência (qualquer assistência).

Interessante o debate a que hoje podemos assistir, e de que também podemos participar: o sociólogo e o operário, quem mais realizou? Quem demonstrou mais habilidade política?

O operário manteve uma popularidade excepcional ao longo dos dois mandatos, e o sociólogo tornou-se mais conhecido pela fragilidade que impôs ao Estado e pela vaidade fora do comum.

Fico pensando: será que apelar não é necessário para quem não tenha uma meta bem definida?

February 26, 2010

O herói.

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(Inteligência interpessoal – Política)

(Por Jackson Fernandes Filgueiras)

Ele estudou, se qualificou, se informou sobre o que realmente importava.

Com base nos seus conhecimentos, chegou a achar que tinha a solução para os problemas do seu povo. E tentou solucioná-los.

Primeiro, como servidor público. Trabalhou em algumas repartições ali mesmo no município em que nascera. Sempre dava o melhor de si.

No entanto, não parecia que estava alcançando o seu objetivo. Quer dizer, tinha certeza de que era competente, e que fazia o que era necessário. Mas não conseguia agradar ao seu povo. Chovia reclamações. Ninguém usava da palavra para elogiá-lo – não que estivesse atrás de elogios. Mas o fato é que não estava satisfazendo ao seu povo, e isso o transtornava.

Amargurado porque não conseguia uma convivência tranquila com seus concidadãos, e porque era testemunha de tanta bandalheira no “governo”, resolveu entrar para a política: deu com os burros n’água.

Primeiro, a filiação em um partido político. Qual deles? Ora, é óbvio: o partido mais sintonizado com a satisfação das necessidades mais básicas do povo. Mas do povão mesmo. Aí começou a via crucis. Puxa vida, todos os partidos, mas todos mesmos, têm como objetivo a satisfação das necessidades do povo; todos têm como compromisso a erradicação da pobreza e do analfabetismo. Todos têm o compromisso registrado em seus estatutos de promover a justiça social. Não dá para entender como ainda não conseguiu-se isso.

Que fazer? Diante dessa constatação, inevitável a depressão. Puxa vida! Esses nossos representantes são mesmo hipócritas. Não respeitam os estatutos de seus partidos políticos. Alguém tem que denunciar isso.

Alguém, quem?

Alguém, ora.

Só se for você. Não é você que quer salvar o seu povo da miséria e da ignorância?

Ora, não são todos os partidos?

Você já não percebeu que os políticos não respeitam os estatutos dos partidos? Não chegou à constatação de que alguém precisa denunciar essa bandalheira? Então, é você.

Eu? Mas eu preciso me candidatar.

Então! Se candidate, e denuncie essa falta de respeito.

Ma como eu vou me candidatar se vou denunciar a falta de respeito dos políticos? Se fizer isso, ninguém vai aceitar minha filiação.

Se filie a um dos partidos, e depois denuncie os outros.

E se no partido que eu me filiar também tiver desse tipo de expediente?

Aí você denuncia lá também.

Vai ser difícil.

Você é homem ou não?

Filiou-se. Denunciou a hipocrisia. Fez dela sua bandeira.

Nem seus parentes votaram nele.

Pior. Foi processado por calúnia. Fez sua campanha com seus próprios recursos (magros), sem receber doações de quem quer que fosse; mas mesmo assim, suas contas foram rejeitadas pela Justiça Eleitoral.

Como isso foi acontecer? Sei lá.

O fato é que se tornou inelegível. E por ter sido declarado inelegível, perdeu o cargo público.

Desempregado, antipatizado, não conseguia emprego na sua terra.

Foi comer o pão que o diabo amassou em uma de nossas metrópoles. Lá, era esmagado por várias forças convergentes: o preconceito em relação às suas origens provincianas, a saudade da sua terra e do seu povo, a remuneração aviltante, as humilhações na empresa.

Mas ele era – e é – persistente.

Continuou aprendendo, dentro das condições do momento.

Chegou à conclusão que, apesar de todo seu cabedal, não conseguia se expressar direito.

Então, sacrificando o parco descanso dos domingos, fez cursos para aprender a falar em público.

E surgiu um dos primeiros conflitos de consciência. É que agora ele conseguia falar igual àqueles a quem tanto ele criticava.

Será que tinha se transformado em um deles?

Não. Definitivamente não. Ele é um homem de caráter.

Agora, tinha condições de transmitir suas ideias.

E agora iria ajudar o seu povo – afinal, se fora tão apedrejado foi porque não o entenderam, e quem o havia entendido queria destruí-lo.

Passou um tempo trabalhando duro e estudando oratória, expressão corporal, fazendo análise.

Como era muito inteligente e muito preparado, com o aprendizado da metrópole – oratória, expressão corporal e outras coisinhas – começou a progredir no trabalho.

Descobriu que algumas pessoas que antes o desprezavam agora o admiravam. Lógico, porque agora ele sabia expressar o que sentia.

Tomou gosto pela coisa – quer dizer, lidar com pessoas, convencê-las de que suas ideias eram boas. Convencê-las enfim.

Percebeu (ou alguém lhe disse) que convencer as pessoas é política. E decidiu que agora tinha dois bons motivos para voltar à atividade política: ajudar as pessoas, e exercer a arte do convencimento. Argumentar com as pessoas, até conseguir sua anuência, passou a lhe dar uma satisfação muito grande – não sei se pela serotonina ou pela testostesterona.

Quando achou que havia guardado boas economias, voltou à sua terra. Havia-se preparado para a curiosidade, para a indiferença, para o estranhamento, e até para a hostilidade; mas mesmo assim não foi fácil. Contudo, ele era perseverante.

Com suas habilidades de bem sucedido homem de negócio, conseguiu paulatinamente conquistar os seus concidadãos. Pacientemente, continuou com suas atividades de despachante e corretor.

Não foi fácil, mas conseguiu convencer aos dirigentes do comitê municipal de um dos partidos com representação no seu município. Mesmo assim, ainda lhe restava algum dinheiro, depois de tão dura empreitada.

Que fazer agora?

Demonstrar que sua candidatura seria indispensável para o partido.

E como conseguir isso?

Havia de traçar uma estratégia bem eficiente, pois os interesses individuais pesam mais que os coletivos, já o sabia há tempos.

E os interesses individuais dos mais poderosos são inexpugnáveis.

Ok. Ok. Mas e aí? O que vai ser?

O mais lógico é diminuir o número de poderosos.

Tá. Perfeito. Mas como?

O povo simples do interior – no mundo inteiro – foi acumulando sabedoria. Como não havia condições de fazer faculdade, guardava como verdadeiros tesouros os ensinamentos dos antepassados (e são tesouros, mesmo).

Argh! Que besteira! Que que isso significa?

Significa que o povo simples da minha cidadezinha pobre, onde Judas perdeu as botas, me deixou muitas lições. Agora, eu só preciso escolher quais os ensinamentos me serão mais úteis em cada momento.

Que besteira! Estamos falando em política. Não essa conversinha de madames. É briga de foice!

Eu sei. Sabe uma das coisas que os velhos de meu lugar gostam de dizer?

Não sei, e acho que não quero saber.

Que perfeito só Deus.

Deus? Isso existe?

Os agnósticos atestam que não há provas suficientes da sua existência.

Pois então?

Então? Não existe ninguém perfeito.

Até as pedras sabem disso. E o que que isso tem a ver com a disputa política?

Todo mundo tem algo a esconder.

Tá. Isso é de uma banalidade pueril. E aí?

E aí que, se todo mundo tem seus podres, urge descobrir quais são os podres mais podres; mais constrangedores.

Chantagem, é isso?

Argumentação. Convencimento. Diplomacia.

F.d.p.!

Quem gosta de jogar conversa fora não tem dificuldade para conseguir conhecer os segredos mais secretos (olha o pleonasmo). É só juntar as peças do quebra-cabeça. No início parece não fazer sentido, mas o jogo de xadrez também não faz (para mim).

O fato é que aquele fiscal de rendas ambicioso desistiu de se candidatar. O médico do postinho de saúde também.

Não dá pra saber quais foram os expedientes, mas sua candidatura foi sugerida pelo cacique mais influente da região.

Medo?

Sei lá!

Mas seu nome foi aprovado na convenção.

Agora, a vida real: tantos anos fora, tanta coisa nova, tanta gente nova. Como convencer o povo que era a melhor proposta?

É. Como?

Chamar a atenção!

Pendurar uma melancia no pescoço?

Não seja ridículo!

Mas é pra ser ridículo mesmo. Quer chamar a atenção sem se tornar ridículo?

Melancia no pescoço não!

Tá. Mas o que?

Ah, sei lá. O que que esse povo precisa?

Pão e circo.

Deixe de besteiras!

Pense em escolas, vai. Diga por aí que o povo precisa de educação, e de disciplina. É isso mesmo que vai propor?

Mas melancia no pescoço? !!!

Tem alguma ideia melhor?

Puxa! O que poderia ser?

Melancia no pescoço! Melancia no pescoço! Melancia no pescoço!

Chega! Chega! Chega!

Melancia…

Chega, já disse!

Melan…

Isso!

Melancia no pescoço?

Quase isso. O povo tem uma enorme carência nutricional.

Mortos de fome, isso é que é.

Carência nutricional. Não me atormente!

Vai me matar?

Não me tente! Está certo: melancia no pescoço é válido; e o meu povo é morto de fome. Mas isso é impronunciável.

Ah! Muito bem! Agora aquele sonhador se tornou diplomático e hipócrita.

Diplomático sim.

Hipócrita.

Eu só preciso tomar cuidado com as palavras, para não ferir as pessoas. Você sabe, dizer o que pensamos não ajuda em nada.

Fingir que pensamos o contrário também não.

Pois é. Eu estou no meio termo.

Em cima do muro.

Tudo bem, em cima do muro.

Viu?

Vi. Ok. Vai querer que eu vá lá na praça e diga pra o meu povo: meus concidadãos! Eu sou um pulha, um hipócrita, um sacripantas! Vai?

Seu povo não ia entender porra nenhuma.

Pois é. Mas todos esses questionamentos me fizeram perder o fio da meada.

Que meada? Você agora faz crochê? Uiuiui.

Eu me perdi na linha de argumentação que estava desenvolvendo!

Melancia no pescoço!

Não. Melão.

Melancia!

Melão! Melão para todos.

Tá doido!

Sim. Uma loucura. Alimento para todos. Melão para todos.

Certo. Melão para todos é uma loucura.

É. E vai me dar destaque.

Como? Você vai distribuir melão para todos. Acha que vai ser admirado por isso? Vão é lhe tachar de otário.

Pode ser. Mas se eu conseguir que todos procurem pelos melões que eu vou adquirir, a coisa vai ser diferente.

Não vejo como.

Essa é boa.

É boa mesmo. Vamos discutir isso?

Ah, deixa pra lá. O caso é o seguinte: um concurso de degustação de melões.

Degustação de melões. Que palhaçada!

Por que?

Porque essa chusma não tem classe para degustar nada.

Degustar é maneira de falar. Será um concurso pra ver quem come mais melão, em menos tempo.

O que vai ter de neguinho morrendo de estupor. Aí sim, a candidatura vai pro pau mesmo.

Deixa comigo.

Tá. Deixo.

Obrigado.

Assim é que naquela cidadezinha do interior, onde havia uma incipiente fruticultura irrigada, foi promovido um concurso de consumo individual de melão. Todo o mundo queria participar – pela oportunidade mesmo de consumir a fruta, para aparecer diante de parentes e amigos, … e principalmente ambicionando o prêmio, substancioso.

Tempos depois, foi promovido também um concurso de corrida de costas. Isso mesmo. Os atletas correriam uma boa distância, sempre de costas – havia mais fiscais que concorrentes, para garantir a lisura do certame.

Depois, uma corrida de jegues, com obstáculos.

E um concurso de noivas de São João.

E um concurso de caretas – quem conseguisse a expressão mais medonha ganharia um bom prêmio.

Pelo menos, isso ajudou a que as pessoas se apresentassem mais ao natural.

Concurso pra pegador de galinhas. E pegador de bacorinhos.

E ele se tornou popularíssimo.

Tanto, que foi o vereador mais votado.

E, como havia-se tornado muito descolado, foi fácil levar a presidência da Câmara.

Nesse posto, desenvolveu projetos muito relevantes. Como o “estacionamento pra cavalos” (com capim de graça). E uma réplica da Estátua da Liberdade (estilizada por um artista local, pra desgosto do herói). E uma réplica da Ponte de Londres (pra sua cidadezinha respirar ares de erudição).

E as atividades culturais proliferaram.

Concursos de carpideiras. De imitadores de passarinhos. De capoeiristas. De contorcionistas. De strippers (isso é cultura, meu povo!).

Houve até um concurso de batedores de carteiras (o herói estava convencido de que os seus conterrâneos eram mais competentes que os pedantes das metrópoles).

O fato é que, depois de dois mandatos como vereador, ele conseguiu facilmente se eleger deputado estadual. Com muitos votos.

E está plenamente convencido de que pode prover as soluções para todos os problemas de todos os brasileiros.

Não duvido que um dia se eleja o Presidente da República – mesmo que numa eleição indireta.

(Continuo … quando puder)

February 5, 2010

Os maranhenses e a política

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(Jackson Fernandes Filgueiras)

Na hora do almoço, eu me sentei próximo a uma mesa ocupada, supostamente, por maranhenses. Esses discutiam, ao que parece, relações familiares e entre amigos.

Isso me fez lembrar dois outros momentos:

- Duas noites passadas, comentava em família sobre política. Meu cunhado falava sobre suas experiências no Bico do Papagaio, região do Norte de Goiás (hoje do Tocantins), na divisa com os estados do Pará e do Maranhão.

Discorria sobre o poder de Sarney – e de Davi, em Imperatriz. E o atraso de vida que esse poder representa para o povo.

- No final de semana passado, lia num blog de sociologia e política sobre o teórico do século XIX, que cunhou a máxima segundo a qual “cada povo tem o governo que merece”.

Buscando novamente, me informei que esse teórico se chama(va) Joseph De Maistre, é(ra) filósofo e diplomata francês, crítico fervoroso da Revolução Francesa,  conservador, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias.

Realmente, alguém bastante autorizado a opinar sobre comportamento, escolha, decisões, não é mesmo?

Quer dizer que é o povo maranhense o (único) responsável pelo descalabro e atraso daquele Estado?

É o povo o responsável por as melhores oportunidades, por mais degradantes que sejam, estarem quase sempre no exílio?

Não seria esse povo a vítima do abuso e da extorsão?

Ora, já se diz, há um bom tempo, que o princípio da equidade comanda que se trate os desiguais de forma desigual, na proporção de sua desigualdade.

Em sendo assim, eu penso que se devia dar um desconto para os votos equivocados (se é que o são) do povo maranhense. Afinal, o autoritarismo não deixa-o respirar em paz.

Mesmo assim, alguma coisa está acontecendo. Esse povo elegeu um médico militante na esquerda, e o poder local teve que recorrer ao tapetão para por no lugar “a candidata que virou picolé” (lembram dessa?).

January 18, 2010

A tragédia no Haiti.

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(Por Jackson Fernandes Filgueiras)

Sábado, assisti a parte da matéria da Globo sobre a destruição causada pelo terremoto em Porto Príncipe.

Era uma transmissão ao vivo, por um casal de repórteres (um de cada vez) – ela já bem conhecida do público.

O rapaz (desculpem-me pelo termo, rico em significado), nervoso (eu também estaria), repetia sempre: haitianos feridos; mais haitianos; haitianos; haitianos; E nos ia mostrando a sucessão de infelicidades e desespero.

Tudo bem que um terremoto no Haiti deixe em frangalhos a vida de haitianos. Mas há que perguntar: só haitianos? E a doutora Zilda Arns? Não é preconceito, mas a doutora Zilda é (pra mim sempre será) brasileira.

Eu sei que estou exagerando. Essa é a atividade e a missão do jornalista – levar a notícia ao público leitor, ouvinte e assistente. Mas a constante repetição do termo haitianos me incomodou (para contextualizar, aqui no trabalho eu comentei hoje que, sendo agudamente crítico com a redação de alguns setores/colegas, vinha encontrando dificuldade de redigir).

No entanto, logo o cenário mudou (mudou nada, continuou focando na catástrofe): no lugar do rapaz, entrou a moça.

E apesar de ainda centrado na catástrofe, o enfoque foi ligeiramente diferente. A repórter estava acompanhada de um oficial do Exército brasileiro, que a ciceroneava.

Incrível foi que, naquele momento, convenientemente o oficial identificou um movimento eu algum lugar na rua, quer dizer, por aí (por lá). Se tratava de uma pessoa soterrada nos escombros do que fora um hospital, ou posto de atendimento. O oficial removeu parte dos escombros, e conseguiu identificar que a pessoa estava viva, depois de tanto tempo soterrada.

E a Globo registrou tudo: a tensão, a vibração, a comemoração – sim, comemoração, afinal era uma vida.

No domingo, de novo o Haiti. Muito justo, pois nossa compaixão (foi o termo que me veio, embora talvez não seja o mais adequado) nos impele a buscar mais sobreviventes da tragédia, a buscar formas de ajudá-los a superar as dificuldades mais agudas.

Então, um recorte no Fantástico para apresentar alguns dos heróis ativos nessa desgraça. E é citado o caso daquele oficial “que acompanhava a repórter nas visitas aos escombros de Porto Príncipe”.

Por mais razoável que seja empreender esforços para divulgar as imagens da tragédia e do sofrimento (e eu realmente acho que é, principalmente pela possibilidade de concertação em prol da mitigação do sofrimento e da superação do estado de falência e miséria daquele povo), me agride o fato de um Oficial do Exército brasileiro ser destacado para ciceronear uma repórter da Vênus Platinada.

Qual a magnitude da “missão” da Globo?

Será que faturar em cima do sofrimento de um povo justifica recrutar quadros do Exército brasileiro, ou de qualquer exército do mundo, ou servidor público, para exercer o papel de facilitador?

Ok, o Oficial Foi um herói. Mas será que aquele “flagrante” de salvamento não foi planejado para a ocasião?E se não foi, será que o militar não deveria estar à cata de mais almas? Afinal, as forças de paz não foram até lá para salvar almas (não exatamente conforme o bordão pretensamente cristão)? Para tirá-las da miséria e da desesperança?

Se por acaso eu estiver enganado, peço que me critiquem, para me indicarem o caminho da "luz".

January 4, 2010

A caridade, os paulistas e os nordestinos

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Gugu Liberato e a Filantropia

Domingo, eu estava em casa, sem o que fazer. Liguei a TV.

Mas assistir a que programa?

Dúvida cruel. Nada me interessa tanto na TV que me impeça de fazer outra coisa (claro que em outra época não era bem assim). Mas ficar ocioso, letárgico, “coçando”, estava me dando nos nervos.

Então sintonizei na Record – porque é o canal que sintoniza melhor na minha casa (depois da Globo - sem comentários, né?).

Assisti a algum noticiário, um pouco desse produzido/ancorado pelo Paulo Henrique Amorim.

Começou a chegar gente e, como sou muito dispersivo, me afastei da TV. Algumas horas depois, me atraiu (pelo ridículo – do meu ponto de vista, e pela comoção causada em meus parentes) o programa do Gugu Liberato – no quadro De Volta para Minha Terra.

Puxa vida, doeu de novo. Sempre dói. Sempre vai doer.

É sempre a mesma coisa – a equipe encontra, na cidade de São Paulo, uma família nordestina em situação de miséria (pelo que eu leio nos blogs de política, não deve ser uma tarefa difícil), produz um vídeo contando a história dessa família, narrando os seus dramas, expondo toda sua situação miserável, reduzindo as pessoas a coisas (ou bichos), e depois entram os parceiros (publicidade, é o que é), se comprometendo a levar de volta essa família para sua terra.

Ah! Mas eu simplifiquei o processo! E o fiz porque não tenho saco para isso, é claro.

É indagado às pessoas o que vieram (foram) fazer naquela cidade, quais os seus sonhos, o que conseguiram, por que não conseguiram, o que aconteceu para dar errado. E as imagens. Afinal, elas são necessárias. O ambiente insalubre (sim, pois se não estiverem num ambiente insalubre, não farão jus à “ajuda humanitária”). E as pessoas – em frangalhos, pois “uma imagem conta mais do que mil palavras”, ou coisa assim. E o suspense – é, as pessoas não sabem se receberão a ajuda (pois essa ajuda depende somente da boa vontade do filantropo e do empenho daquela equipe que os achou e pretende salvá-los. Mas filantropia é isso mesmo, não é? não se pode constranger alguém a ser um filantropo; estender a mão depende de cada um, de estar predisposto); então, têm de pedir, de fazer cara de súplica, renunciar ao que restou de dignidade (se restou alguma).

E depois vem a caridade. E tome caridade. E mais caridade, até saturar.

É preciso deixar registrado que a alma caridosa vai transformar a vida dessas pessoas, e elas nunca mais experimentarão o desespero, a carência, o desconforto, a penúria.

A alma caridosa leva a família de volta para sua terra, no Nordeste – e a equipe da TV acompanha a volta dos filhos pródigos; e registra a surpresa, a ansiedade, a expectativa da família.

Mas é só?

Não, caro expectador. Tem mais. É preciso que outra equipe vá até ao destino, espicaçar os entes queridos (é, pois é; são queridos, ao menos na telinha; a telinha precisa que essas pessoas apareçam bem na foto) dos que fugiram do flagelo da seca (da desigualdade, da má distribuição de renda, dos privilégios, do mandonismo, do coronelismo oportunista, enfim). “Vocês têm um parente assim, assado, com nome tal? Onde está ele? Foi embora daqui? Para onde? Qual a última vez que voltou aqui? Qual a última vez que você falou com ele?” E, por fim, o desfecho – chegou o filho pródigo, que saiu em busca de melhora de vida, e “deu com os burros n’água”, piorando gravemente sua situação, não tendo condição de voltar para o que tivera antes (aliás, ninguém volta para o que fora ou tivera - apenas para lembrar a máxima atribuída aos estóicos: ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, pois nem o rio é o mesmo, nem tampouco o sujeito).

E aqui, também é lícito invadir, devassar, espicaçar, especular, se intrometer, bisbilhotar (se não bisbilhotar não tem "veia artística"), registrar o encontro, o entusiasmo, a emoção, a explosão dos sentimentos, o alívio, a dor (sim, a dor. Da frustração, da saudade, da impotência. Não sei de que mais, mas há dor).

Terminou?

Não! Claro que não!

A caridade continua. Agora, entra em cena outro filantropo, que generosamente dá ao chefe da família retornada um kit de sobrevivência – consistente de material para explorar uma prestação de serviço, mais um treinamento básico.

E depois, os votos de sucesso, etc, etc.

Por que isso me agride, mesmo? Afinal de contas, não foram mais uns cinco nordestinos, pelo menos, roubados ao negrume da miséria?

Ah, cidadão, isso me agride por várias razões. Contudo, vou citar somente duas:

A primeira – pela espetaculização dos dramas pessoais.

Não fosse por as cenas de miséria renderem um bom material televisivo (e potencial de ganho publicitário), nenhum canal de TV iria investir em resgatar alguém da miséria.

Então para mim é isso – os meus conterrâneos são meras coisas (e bichos, como já falei – e como deixou bem registrado Graciliano Ramos em sua obra).

Afinal de contas, só dá ibope notícia ruim, tragédia, desgraça. Nesse contexto, mesmo fazendo caridade (ô palavra triste, pesada), há que espetaculizar o ato.

Mesmo porque esse é o negócio da empresa (claro que poderíamos falar de ética, de princípios; mas não sejamos piegas).

A segunda, pela imensa carga ideológica embutida no processo.

Nordestino tem de ficar no seu lugar – o Nordeste. São Paulo é terra de paulistas, gente valorosa.

Então, os nordestinos que ainda pensam que tem lugar em São Paulo pra pau-de-arara, baiano, cabeça-chata, que tirem o cavalo da chuva.

Está na miséria? Então volte pro seu lugar, verme! Aqui não tem lugar pra vadio não.

Não tem como voltar? Então que morra, desinfete.

Não é isso? Eu estou exagerando?

Nese caso, aqui vão duas perguntas:

- Tem ajuda para os nordestinos que não decidirem voltar para o Nordeste?

Ah, tem? Então por que isso não é divulgado nesse programa televisivo? Por que o nome é “de volta pra minha terra”? Por que não tem um programa com um nome tal "uma gota de esperança"?

- Só há miseráveis em São Paulo se forem nordestinos ou seus descendentes?

Não há miséria entre os paulistas do interior? Entre os mineiros, gaúchos, paranaenses?

Ou esses grupos não migram para a Paulicéia, como os nordestinos?

Se há migrantes oriundos dessas regiões, então o “de volta pra minha terra” também os retorna pra suas origens?

Eu nunca vi. (Claro, né? Eu quase não assisto mais a TV (ufa!))

Minha conclusão: os nordestinos (pobres) não são bem-vindos em São Paulo.

Mas São Paulo se orgulha de ser uma cidade construída (erguida) por imigrantes. E os migrantes (alguns) não têm vez no seu microcosmo.

Enfim, é isso: imigrante, sim; migrante não.

Isso pode ser um problema, pois uma das correntes migratórias mais intensas atualmente é a dos bolivianos. Mas fiquemos com os nordestinos.

Cidades vitalizadas por afluência migratória cuidam de integrar esses grupos de (i)migrantes. Isso aconteceu em São Paulo, com os italianos, japoneses, portugueses, espanhóis, alemães.

Todavia, se reluta em integrar os nordestinos (e os bolivianos – mas isso é outra história, teimoso!).

Por quê?

Não vale a pena integrar os nordestinos?

Seria porque eles falam cantado, arrastado?

Seria porque eles não falam chiando? E falam “x” onde os sulistas falam “s”?

Ou é problema de cor? De aparência?

No Brás se diz que as marcas deixadas pelos italianos são indeléveis. No Liberdade, idem para os japoneses. Mas os nordestinos também deixaram as suas, mesmo que mais intensamente na periferia. Os nordestinos também contribuíram para fazer São Paulo ser o que é hoje (e o que já foi alguns poucos anos atrás).

Por que esse preconceito? Esse racismo?

Sim, racismo.

A segregação de uma pessoa, ou um grupo de pessoas, a partir de critérios relacionados a noções de raça, origem, posição social, é considerada racismo.

Ah, racismo é muito pesado? Todo bem, fiquemos com xenofobia.

Xenofobia também não é adequado?

Não é adequado é ser xenófobo, meu caro.

E digo mais:

- O conceito de pureza racial, com muito prejuízo para as possibilidades futuras, se aceita na agricultura e na pecuária (veja o caso dos produtores de bananas e de cacau, acossado por pragas que vem dizimando os clones mais frágeis);

- Nas relações humanas é uma insanidade.

Exemplos há muitos, desde priscas eras:

Sabemos dos vikings (e outros povos gerreiros), que ao pilhar e saquear os bens dos povos subjugados (invadidos), “contribuíam” para melhorar a genética daqueles;

Sabemos, também, da política de apartheid, adotada pela racista África do Sul, onde cidadãos conviviam em até quatro mundos paralelos, a depender de suas origens (e aparência/compleição física): o dos “brancos” europeus, o dos negros, o dos indianos, e o dos “mestiços” (ou colored people);

Sabemos que o movimento de enfrentamento liderado por Martin Luther King levou à falência uma empresa de transporte coletivo em Atlanta, que atendia os cidadãos de forma diferenciada, conforme fossem negros ou “brancos” – apesar de esses pagarem o mesmo preço;

Sabemos que o ideal ariano de Hitler deixou em feridas profundas e ainda abertas – e deu aos israelenses um pretexto para adotarem, eles também, uma política racista, e posarem de vítimas (que realmente o foram).

Então, brasileiros, será mesmo que vale a pena defender que paulistas, gaúchos, paranaenses, catarinenses, são melhores do que nordestinos, amazonenses, maranhenses, índios, negros, caboclos, etc?

Integrar não seria mais proveitoso (em todos os sentidos)?

December 29, 2009

A Oi, o PulaPula e os Contratos

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Recebi pelo menos duas mensagens da Oi no meu celular, informando que só vai manter o meu número até Abril – e seu eu quiser mantê-lo, tenho que comprar um chip Oi.

Nem vou comentar o quanto isso me estressou; aliás, irritou.

Vou comentar outra coisa.

Por volta de 2002, quando Lula despontou como favorito nas eleições presidências, e depois, quando foi eleito Presidente da República, os analistas econômicos liberais e os especialistas em telecomunicações berravam, diante da possibilidade de se reverter as privatizações, que um país sério deve respeitar (honrar) os contratos.

Muito bonito. Honra-se os contratos; empenham-se os fios de bigode, e morre-se por eles.

Mas espere aí. Por acaso não existe no nosso Código Civil, desde o tempo em que fios de bigode valiam alguma coisa, a possibilidade de rever cláusulas contratuais desfavoráveis, que não foram possíveis de negociar quando da celebração (as chamadas cláusulas leoninas)?

Ah! Mas não se trata de cláusulas leoninas quando o Estado foi capturado por um grupo não exatamente comprometido com a causa social. É isso mesmo, não é?

Eu acho que não é isso mesmo. Ora, não era a vontade do povo. E os crimes associados a tal empreitada ficaram conhecidos de todos que se interessaram pela matéria. Tornou-se famosa a frase “se estourar, estamos fodidos”, talvez não com essas palavras, mas a última foi pronunciada.

E agora, vem a companhia telefônica, dizendo que não vai honrar o contrato celebrado entre mim e a companhia que fora incorporada? Está certo isso?

Eu não pretendo deixar barato.

Atenção, empresário de telecominucações, honre seus contratos, seja homem! (não necessariamente no gênero, mas na dignidade).

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